Nem toda mulher com TDAH foi uma criança inquieta. Muitas foram meninas silenciosas, inteligentes e esforçadas, que aprenderam cedo a esconder suas dificuldades — até que a sobrecarga da vida adulta tornou impossível continuar compensando.

Autora: Dra. Natália Pimentel Larré
Médica | Atuação em Saúde Mental
CRM-AL 9712

Dra. Natália Pimentel Larre é médica com atuação em saúde mental, dedicada ao atendimento de adolescentes e adultos com transtornos como ansiedade, depressão, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtornos relacionados ao estresse e outras condições psiquiátricas prevalentes. Desenvolve conteúdo baseado em evidências científicas com o objetivo de promover educação em saúde, combater a desinformação e ampliar o acesso a informações confiáveis sobre saúde mental para a população.

Entenda os sintomas do TDAH na mulher adulta, por que o diagnóstico costuma ser tardio e quais são as principais opções de tratamento.

Resumo

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, conhecido pela sigla TDAH, é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por padrões persistentes de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade que interferem no funcionamento cotidiano. Embora historicamente associado a meninos em idade escolar, o TDAH também acomete meninas e mulheres, podendo permanecer sem reconhecimento até a vida adulta. Ademais, nas mulheres, a apresentação clínica frequentemente envolve sintomas menos exteriorizados, predomínio de dificuldades atencionais, desorganização, procrastinação, sobrecarga mental, instabilidade emocional e estratégias intensas de compensação. Ansiedade, depressão, transtornos alimentares, alterações do sono e baixa autoestima podem coexistir e, em alguns casos, ocupar o centro da avaliação, dificultando a identificação do transtorno subjacente. Assim, o diagnóstico de TDAH na mulher adulta é clínico e deve considerar a história desde a infância, a presença de sintomas em diferentes contextos, o prejuízo funcional e os diagnósticos diferenciais. Conclui-se que escalas padronizadas podem auxiliar, mas não substituem uma avaliação médica abrangente. De modo que o tratamento deve ser individualizado e pode incluir medicamentos, psicoterapia, psicoeducação, adaptações ambientais e intervenções direcionadas às funções executivas. Reconhecer as particularidades do TDAH feminino contribui para reduzir anos de sofrimento, autoculpabilização e tratamentos incompletos.

Palavras-chave: TDAH na mulher adulta; sintomas de TDAH em mulheres; diagnóstico de TDAH feminino; desatenção em mulheres; TDAH e ansiedade; TDAH e depressão; tratamento do TDAH adulto; funções executivas; procrastinação; sobrecarga mental; mascaramento; saúde mental feminina.

Introdução

Durante muitos anos, a imagem mais difundida do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade foi a de um menino agitado, impulsivo, com dificuldades de permanecer sentado e problemas frequentes na escola. Essa representação não é inteiramente equivocada, mas contempla apenas uma parte das possíveis manifestações do transtorno. Quando utilizada como modelo único, pode contribuir para que meninas e mulheres com sintomas predominantemente desatentos não sejam reconhecidas.

Ademais, o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que pode persistir na adolescência e na vida adulta. Seus sintomas afetam não apenas a concentração, mas também a organização, o planejamento, a administração do tempo, a memória de trabalho, o controle de impulsos e a capacidade de iniciar e concluir atividades. Em adultos, essas dificuldades podem comprometer os estudos, a carreira, os relacionamentos, o cuidado com a casa, a administração financeira e a saúde emocional.

Um ponto importante é que estudos contemporâneos sugerem que as diferenças observadas entre homens e mulheres resultam de uma combinação complexa de fatores biológicos, sociais, educacionais e culturais. As diferenças médias entre os sexos geralmente são modestas e não devem ser transformadas em regras rígidas. Ainda assim, mulheres parecem estar mais sujeitas ao subdiagnóstico, especialmente quando não apresentam hiperatividade motora evidente ou comportamentos disruptivos.

Além disso, estudos epidemiológicos estimam que o TDAH acometa aproximadamente 5% das crianças e cerca de 2,5% dos adultos em todo o mundo. Entretanto, esses números provavelmente subestimam a frequência do transtorno entre mulheres, uma vez que muitas permanecem sem diagnóstico durante décadas em razão de apresentações clínicas menos evidentes.

Consequentemente, algumas mulheres chegam à avaliação somente depois de anos de tratamentos para ansiedade, depressão, exaustão, insônia ou baixa autoestima. O reconhecimento tardio não significa necessariamente que o transtorno começou na idade adulta. Em muitos casos, a investigação retrospectiva revela sinais presentes desde a infância, mas interpretados como distração, desinteresse, preguiça, excesso de sensibilidade ou falta de disciplina.

O que é o TDAH na mulher adulta?

Somado a isso, o TDAH na mulher adulta não constitui um diagnóstico diferente do TDAH observado nos homens. Os critérios diagnósticos fundamentais são os mesmos. A expressão clínica, entretanto, pode ser influenciada pelo perfil individual dos sintomas, pelas exigências do ambiente, pelas estratégias de adaptação e pelas expectativas sociais dirigidas às mulheres.

Cumpre destacar que a desatenção pode aparecer como dificuldade para acompanhar conversas longas, esquecer compromissos, perder objetos, cometer erros por distração, abandonar tarefas pela metade ou não conseguir organizar uma sequência de ações. Algumas mulheres descrevem a sensação de ter muitos pensamentos simultâneos, mas pouca capacidade de transformá-los em ações ordenadas.

Por sua vez, a hiperatividade nem sempre significa correr, levantar-se repetidamente ou apresentar movimentos muito evidentes. Na idade adulta, ela pode ser percebida como inquietação interna, necessidade de estar sempre ocupada, fala acelerada, dificuldade para relaxar, impaciência ou tendência a assumir diversos projetos ao mesmo tempo.

Já a impulsividade pode envolver interrupções durante conversas, decisões precipitadas, gastos não planejados, respostas emocionais intensas ou dificuldade para esperar. Entretanto, nenhum desses comportamentos, isoladamente, confirma o diagnóstico. Para caracterizar o TDAH, é necessário identificar um padrão persistente, iniciado no período do desenvolvimento e associado a prejuízo funcional significativo.

Por que o diagnóstico costuma ser tardio?

Um dos principais motivos para o diagnóstico tardio é o menor reconhecimento das manifestações predominantemente desatentas. Por esse motivo, meninas que não perturbam a sala de aula podem passar despercebidas, mesmo quando estão mentalmente distantes, esquecem materiais, perdem prazos ou precisam de esforço desproporcional para acompanhar as tarefas.

Além disso, algumas apresentam bom desempenho acadêmico durante a infância. Inteligência, supervisão familiar, ambientes estruturados, interesse por determinadas disciplinas e medo de decepcionar podem mascarar as dificuldades. O prejuízo torna-se mais visível quando aumentam as exigências de autonomia, por exemplo, durante a universidade, o início da vida profissional, o casamento ou a maternidade.

Outro fator importante é a presença de sintomas internalizantes. Ansiedade, tristeza, culpa, perfeccionismo e baixa autoestima são mais facilmente reconhecidos como sofrimento emocional. Assim, a mulher pode receber tratamento para esses sintomas sem que sejam investigadas as dificuldades executivas que contribuem para a manutenção do quadro.

Em suma, o diagnóstico tardio também pode decorrer do chamado mascaramento, ou masking. Esse termo é utilizado para descrever estratégias conscientes ou automáticas destinadas a ocultar dificuldades. Fazer listas excessivas, conferir repetidamente o trabalho, chegar muito antes aos compromissos por medo de se atrasar, trabalhar durante a madrugada ou depender de níveis elevados de ansiedade são exemplos de compensação. Essas estratégias podem sustentar o desempenho por algum tempo; contudo, costumam exigir elevado desgaste emocional. Por trás de uma aparência organizada, pode existir uma rotina marcada por exaustão, medo de errar e sensação constante de estar prestes a perder o controle das obrigações.

Além disso, o diagnóstico do TDAH permanece essencialmente clínico. Até o momento, não existe exame laboratorial, teste genético ou exame de neuroimagem capaz de confirmar ou excluir, de forma isolada, o diagnóstico de TDAH. Dessa forma, uma anamnese detalhada e a avaliação da história clínica continuam sendo os principais pilares para o reconhecimento do transtorno.

Diferenças entre homens e mulheres

Estudos clínicos e populacionais mostram que meninas e mulheres com TDAH apresentam, em média, maior predominância de sintomas de desatenção e de manifestações de sofrimento emocional. Em contrapartida, meninos e homens são mais frequentemente identificados por sintomas de hiperatividade, impulsividade e comportamentos externalizantes. Apesar dessas tendências, existe ampla sobreposição entre os grupos: mulheres também podem apresentar hiperatividade e impulsividade, assim como homens podem ter predomínio de sintomas desatentos.

A proporção de diagnósticos entre os sexos é mais desigual durante a infância e tende a se aproximar na idade adulta. Esse achado sustenta a hipótese de que uma parcela das meninas não seja identificada no período escolar, chegando aos serviços de saúde somente quando as consequências funcionais se tornam mais intensas.

Dessa forma, normas culturais podem influenciar a maneira como os sintomas são percebidos. Espera-se frequentemente que mulheres sejam organizadas, cuidadosas, emocionalmente disponíveis e capazes de administrar múltiplas responsabilidades. Quando não conseguem corresponder a essas expectativas, podem atribuir suas dificuldades a falhas morais, e não a uma possível condição clínica.

É fundamental, contudo, evitar uma visão estereotipada. Não existe um perfil feminino único de TDAH. A avaliação deve considerar a singularidade da paciente, sua história familiar, seu contexto social, suas responsabilidades, suas estratégias de enfrentamento e a intensidade do prejuízo.

Aspectos neurobiológicos

O TDAH apresenta elevada contribuição genética e está associado a diferenças funcionais em sistemas cerebrais relacionados à atenção, à motivação, à inibição comportamental e às funções executivas. Essas diferenças não significam falta de inteligência, incapacidade ou lesão cerebral visível em exames de rotina. Também não existe um exame de imagem capaz de confirmar individualmente o diagnóstico.

Desse modo, circuitos envolvendo o córtex pré-frontal e suas conexões com outras regiões cerebrais participam de processos como planejamento, memória de trabalho, monitoramento do comportamento, percepção do tempo e regulação das respostas. Os sistemas de neurotransmissão, especialmente os relacionados à dopamina e à noradrenalina, também são relevantes para a compreensão dos sintomas e para a ação de alguns medicamentos.

Em síntese, há interesse científico crescente sobre a possível influência das oscilações hormonais na expressão dos sintomas ao longo do ciclo menstrual, durante a gestação, no pós-parto e na transição para a menopausa. Entretanto, as evidências ainda são insuficientes para estabelecer regras universais ou protocolos terapêuticos baseados exclusivamente nas fases hormonais. A experiência clínica da paciente deve ser considerada, mas com cautela para que hipóteses biologicamente plausíveis não sejam apresentadas como conclusões definitivas. Embora diversos estudos investiguem a influência hormonal sobre a intensidade dos sintomas, ainda existem limitações metodológicas que impedem conclusões definitivas.

Principais sinais de alerta:

Sinal de alertaComo pode se manifestar no dia a dia
🗝️ Perde objetos frequentementeEsquece onde colocou chaves, carteira, celular ou documentos.
📅 Esquece compromissosPerde consultas, reuniões ou datas importantes, mesmo utilizando lembretes.
⏳ Procrastina tarefas importantesAdia atividades relevantes, principalmente aquelas que exigem planejamento ou esforço mental.
🧠 Sente sobrecarga mental constanteSensação de estar com muitos pensamentos ao mesmo tempo e dificuldade para organizar as ideias.
🎯 Dificuldade para priorizarTem dificuldade em decidir o que fazer primeiro e em estabelecer prioridades.
📋 Começa muitas atividades e termina poucasInicia diversos projetos com entusiasmo, mas encontra dificuldade para concluí-los.
⏰ Dificuldade em administrar o tempoSubestima o tempo necessário para realizar tarefas e
frequentemente se atrasa.

Sintomas cognitivos e funções executivas

As funções executivas correspondem a um conjunto de processos cognitivos responsáveis por organizar o comportamento em direção a objetivos. Entre elas destacam-se a capacidade de planejar, priorizar tarefas, iniciar e concluir atividades, sustentar o esforço, controlar impulsos, manter informações temporariamente disponíveis na memória de trabalho e monitorar o próprio desempenho.

Na mulher adulta com TDAH, alterações nessas funções podem gerar situações aparentemente contraditórias. A paciente pode possuir conhecimento suficiente para realizar uma tarefa, mas encontrar grande dificuldade para iniciá-la. Da mesma forma, pode elaborar um planejamento detalhado para sua rotina, porém não conseguir colocá-lo em prática de maneira consistente. Também é comum alternar períodos de intensa concentração em atividades altamente estimulantes com dificuldade para manter a atenção em tarefas repetitivas ou de menor interesse.

Essa variação da atenção não significa que a pessoa consiga concentrar-se “quando quer”. No TDAH, a capacidade de manter o foco costuma ser influenciada por fatores como interesse, novidade, urgência, recompensa e nível de estimulação da tarefa. Algumas pessoas também descrevem episódios de intensa concentração em atividades que despertam grande interesse, fenômeno frequentemente denominado hiperfoco. Embora essa característica seja amplamente relatada na prática clínica e descrita na literatura científica, ela não integra os critérios diagnósticos do DSM-5-TR. Da mesma forma, alguns pacientes relatam que conseguem iniciar ou concluir atividades apenas quando o prazo está muito próximo, utilizando a urgência ou a ansiedade como principal estímulo para a ação.

Outras manifestações cognitivas frequentemente observadas incluem:

Entretanto, é importante ressaltar que essas manifestações não são exclusivas do TDAH. Privação de sono, transtornos de ansiedade, depressão, transtornos relacionados a traumas, uso de substâncias, doenças clínicas, efeitos adversos de medicamentos e outras condições podem produzir sintomas semelhantes. Por esse motivo, o diagnóstico deve sempre ser fundamentado em uma avaliação clínica abrangente, incluindo o diagnóstico diferencial e a investigação de possíveis comorbidades.

Sintomas emocionais

A desregulação emocional não é um critério central obrigatório do diagnóstico, mas é clinicamente relevante em muitos adultos com TDAH. Importante salientar que, a paciente pode apresentar baixa tolerância à frustração, irritabilidade, mudanças emocionais rápidas, impaciência ou dificuldade para recuperar-se depois de críticas e conflitos.

Outrossim, repetidas experiências de esquecimento, atraso, desorganização e desempenho inconsistente podem contribuir para uma autoimagem negativa. Ao longo dos anos, a mulher pode ouvir que é desleixada, irresponsável, preguiçosa ou incapaz de aproveitar seu potencial. Mesmo quando se esforça intensamente, seus resultados podem não refletir o trabalho investido.

Consequentemente, algumas desenvolvem perfeccionismo como forma de proteção. O perfeccionismo pode parecer o oposto do TDAH, mas, em determinados casos, funciona como estratégia compensatória: a pessoa revisa excessivamente, demora para finalizar tarefas e evita começar aquilo que acredita não conseguir executar de maneira impecável.

É importante diferenciar a instabilidade emocional associada ao TDAH de episódios de mania ou hipomania. No transtorno bipolar, as alterações ocorrem em episódios relativamente delimitados e costumam envolver mudanças importantes em energia, necessidade de sono, atividade dirigida a objetivos e outros sintomas do humor. Por outro lado, no TDAH, impulsividade, inquietação e desorganização tendem a apresentar curso mais contínuo desde o desenvolvimento, embora sua intensidade possa variar.

Relações interpessoais

Os efeitos do TDAH podem alcançar amizades, relacionamentos amorosos e vínculos familiares. Isso porque, esquecer datas, interromper conversas, atrasar-se ou não cumprir tarefas combinadas pode ser interpretado pelo outro como falta de interesse. Ao mesmo tempo, a mulher pode sentir que se esforça continuamente, mas permanece sendo criticada.

Em alguns relacionamentos, forma-se uma dinâmica desigual: uma pessoa passa a monitorar compromissos, contas e responsabilidades, enquanto a outra assume uma posição de constante justificativa. Essa organização pode gerar ressentimento, vergonha e conflitos repetitivos.

Nesse contexto, a impulsividade emocional também pode dificultar a comunicação e a resolução de conflitos nos relacionamentos interpessoais. Respostas impulsivas, baixa tolerância à frustração e a tendência de interpretar críticas como rejeição podem intensificar desentendimentos e comprometer a qualidade das relações. Contudo, é importante não atribuir todos os conflitos interpessoais ao TDAH. Aspectos como a comunicação entre os envolvidos, a história do relacionamento, a distribuição de responsabilidades e a saúde mental de ambos devem ser considerados durante a avaliação clínica.

Diagnósticos diferenciais:

Tabela: Diagnósticos diferenciais

 

CondiçãoO que pode ser semelhante ao TDAHPrincipal diferença
AnsiedadeDificuldade de concentraçãoSintomas ligados à preocupação excessiva
DepressãoDesmotivação e dificuldade de atençãoGeralmente associados ao episódio depressivo
Transtorno bipolarImpulsividadeOcorre em episódios de mania/hipomania
TEADificuldades executivasAlterações persistentes na comunicação social e interesses restritos
Distúrbios do sonoFadiga e desatençãoMelhoram com o tratamento do sono

O diagnóstico do TDAH na mulher adulta exige uma avaliação clínica abrangente e criteriosa, uma vez que diversos transtornos psiquiátricos e condições clínicas podem manifestar sintomas semelhantes, como dificuldade de concentração, esquecimentos, procrastinação, inquietação e alterações emocionais. Nesse contexto, o diagnóstico diferencial é essencial para evitar tanto o subdiagnóstico quanto diagnósticos equivocados, possibilitando a elaboração de um plano terapêutico mais preciso e individualizado.

Transtornos de ansiedade

A ansiedade pode comprometer a atenção, a memória e a capacidade de concentração, especialmente em situações de preocupação intensa. Entretanto, no TDAH, as dificuldades atencionais costumam estar presentes desde a infância e persistem em diferentes contextos, enquanto, nos transtornos de ansiedade, geralmente aparecem ou se intensificam em períodos de maior preocupação ou estresse.

Transtornos depressivos

A depressão pode cursar com lentificação do pensamento, dificuldade de concentração, redução da energia, desmotivação e prejuízo cognitivo. A diferenciação depende principalmente da cronologia dos sintomas. No TDAH, os déficits de atenção e de funções executivas fazem parte da história de vida da paciente, ao passo que, na depressão, costumam surgir ou piorar durante o episódio depressivo.

Transtorno bipolar

Impulsividade, inquietação e distração podem estar presentes tanto no TDAH quanto no transtorno bipolar. No entanto, no transtorno bipolar esses sintomas ocorrem predominantemente durante episódios de mania ou hipomania, acompanhados por alterações significativas do humor, aumento da energia, redução da necessidade de sono e mudanças no comportamento. Já no TDAH, os sintomas tendem a apresentar um padrão persistente desde o período do desenvolvimento.

Transtorno do espectro autista (TEA)

Mulheres com TEA podem apresentar dificuldades de atenção, organização e sobrecarga mental, além de utilizarem estratégias de mascaramento social semelhantes às descritas no TDAH. Apesar da possível sobreposição, o TEA caracteriza-se principalmente por dificuldades persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. É importante lembrar que ambas as condições podem coexistir.

Transtornos do sono

Privação crônica de sono, insônia, síndrome da apneia obstrutiva do sono e outros distúrbios do sono podem causar fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade e redução do desempenho cognitivo. A investigação da qualidade do sono faz parte da avaliação clínica de pacientes com suspeita de TDAH.

Uso de substâncias e medicamentos

O consumo de álcool, cannabis e outras substâncias psicoativas, bem como alguns medicamentos, pode comprometer a atenção, a memória e as funções executivas. Por esse motivo, a história clínica deve incluir investigação sobre uso de substâncias, medicamentos em uso e possíveis efeitos adversos.

Condições clínicas

Além dos transtornos psiquiátricos, algumas condições clínicas também podem manifestar sintomas semelhantes aos do TDAH, incluindo disfunções da tireoide, anemia, deficiência de vitamina B12, deficiência de ferro, distúrbios metabólicos e determinadas doenças neurológicas. Por esse motivo, a necessidade de investigação complementar deve ser individualizada, considerando a história clínica, o exame físico e, quando indicado, exames laboratoriais ou de imagem.

Cabe ressaltar que o TDAH pode coexistir com uma ou mais dessas condições. Assim, estabelecer um diagnóstico diferencial adequado não significa apenas excluir outras causas para os sintomas apresentados, mas também identificar possíveis comorbidades e compreender quais fatores estão contribuindo para o quadro clínico. Essa abordagem possibilita a elaboração de um plano terapêutico mais preciso, individualizado e baseado nas necessidades de cada paciente.

TDAH, maternidade e sobrecarga mental

A maternidade representa uma fase de profundas mudanças e pode tornar mais evidentes dificuldades que, anteriormente, eram parcialmente compensadas por estratégias pessoais ou por uma rotina menos complexa. Além de administrar os próprios compromissos, muitas mulheres passam a gerenciar consultas médicas, horários, alimentação, atividades escolares e as necessidades emocionais dos filhos, o que aumenta significativamente a demanda sobre as funções executivas.

Nesse contexto, mães com TDAH podem sentir-se constantemente sobrecarregadas diante da necessidade de lidar com múltiplas tarefas simultaneamente, interrupções frequentes e mudanças inesperadas na rotina. Manter a organização do ambiente, acompanhar compromissos escolares, planejar atividades familiares e estabelecer rotinas consistentes pode exigir um esforço muito maior quando comparado ao de mulheres sem o transtorno.

Além disso, expectativas sociais e culturais relacionadas à maternidade podem intensificar esse sofrimento. Muitas mulheres sentem-se culpadas por acreditarem que não correspondem ao modelo idealizado de mãe, especialmente quando enfrentam dificuldades para manter a organização, administrar o tempo ou atender a todas as demandas familiares. Essa autocrítica frequentemente contribui para o aumento da ansiedade, da sobrecarga emocional e da sensação de inadequação.

Em alguns casos, a suspeita diagnóstica surge apenas após o diagnóstico de um filho. Ao conhecer melhor as características do TDAH, muitas mães passam a reconhecer, retrospectivamente, sintomas semelhantes em sua própria infância e ao longo da vida adulta. Considerando a elevada herdabilidade do transtorno, essa situação é relativamente frequente na prática clínica e pode representar uma oportunidade importante para o diagnóstico e o tratamento.

Durante a gestação e a amamentação, as decisões relacionadas à manutenção, suspensão ou introdução de medicamentos devem ser cuidadosamente individualizadas. A escolha terapêutica deve considerar a gravidade dos sintomas, o impacto funcional da ausência de tratamento, as evidências científicas disponíveis, os potenciais riscos e benefícios de cada medicamento e as preferências da paciente. Dessa forma, qualquer ajuste terapêutico deve ser realizado em conjunto com o médico responsável, evitando interrupções abruptas ou decisões baseadas exclusivamente em informações obtidas em redes sociais ou outras fontes não confiáveis.

Vida acadêmica

No ambiente acadêmico, o TDAH pode manifestar-se de diferentes formas, refletindo diretamente no desempenho e na organização dos estudos. Muitas mulheres apresentam rendimento inconsistente, demonstrando excelente desempenho em disciplinas que despertam maior interesse, enquanto encontram dificuldade para iniciar ou concluir atividades consideradas menos estimulantes. Trabalhos de longa duração, leituras extensas e tarefas sem prazos intermediários costumam exigir maior capacidade de planejamento, organização e autogerenciamento, tornando-se desafios frequentes.

Durante a infância e a adolescência, o suporte oferecido pela família e pela escola pode funcionar como uma importante estrutura externa de organização. Entretanto, com o ingresso na universidade, a estudante passa a assumir maior autonomia sobre sua rotina, sendo responsável por administrar horários, leituras, avaliações, prazos e deslocamentos. Nesse cenário, dificuldades que anteriormente eram discretas ou parcialmente compensadas podem tornar-se mais evidentes.

Além disso, um bom desempenho acadêmico não exclui o diagnóstico de TDAH. Muitas mulheres conseguem obter notas elevadas às custas de intenso esforço, privação de sono, estudo concentrado próximo às avaliações e níveis elevados de ansiedade. Embora os resultados possam ser satisfatórios, o processo frequentemente ocorre de forma exaustiva e pouco sustentável, com impacto significativo sobre a qualidade de vida e o bem-estar. Assim, a avaliação clínica deve considerar não apenas o desempenho acadêmico final, mas também o custo emocional e funcional necessário para alcançá-lo.

Vida profissional

No ambiente profissional, o TDAH pode repercutir de diferentes maneiras, influenciando a organização, a produtividade e o gerenciamento das demandas diárias. Dificuldades para priorizar tarefas, acompanhar reuniões, responder mensagens, organizar documentos, cumprir prazos e concluir atividades administrativas podem comprometer o desempenho ocupacional, especialmente em ambientes com elevada carga de estímulos, interrupções frequentes e múltiplas responsabilidades simultâneas.

Entretanto, a presença do transtorno não impede o desenvolvimento de habilidades e competências relevantes para diversas áreas profissionais. Muitas mulheres com TDAH destacam-se pela criatividade, capacidade de inovação, curiosidade, pensamento associativo e facilidade para encontrar soluções originais para problemas complexos. Além disso, quando envolvidas em atividades que despertam interesse genuíno, podem apresentar períodos de intensa concentração e elevado desempenho. Essas características, contudo, não anulam as dificuldades impostas pelo transtorno nem devem ser utilizadas para minimizar ou romantizar seus impactos.

Na tentativa de compensar as dificuldades relacionadas às funções executivas, algumas mulheres prolongam a jornada de trabalho, levam atividades para casa, dependem da urgência para iniciar tarefas ou mantêm um padrão de produtividade baseado em prazos extremamente curtos. Embora essas estratégias possam produzir resultados em curto prazo, costumam ocorrer à custa de elevado desgaste físico e emocional, favorecendo sintomas de exaustão, aumento da ansiedade e prejuízo da qualidade de vida.

Nesse contexto, adaptações simples podem contribuir para reduzir a sobrecarga cotidiana. Estratégias como minimizar distrações ambientais, dividir projetos em etapas menores, registrar informações importantes por escrito, estabelecer prazos intermediários e utilizar ferramentas externas de organização podem facilitar o gerenciamento das atividades diárias. Entretanto, essas medidas não substituem o tratamento quando indicado, devendo ser compreendidas como parte de uma abordagem terapêutica ampla e individualizada.

Comorbidades mais comuns

O TDAH em adultos frequentemente está associado a outros transtornos psiquiátricos, situação que pode modificar a apresentação clínica, aumentar a complexidade do diagnóstico e influenciar as estratégias terapêuticas. Entre as comorbidades mais frequentemente descritas na literatura destacam-se os transtornos de ansiedade, os transtornos depressivos, os transtornos relacionados ao uso de substâncias, os distúrbios do sono e os transtornos alimentares. Por esse motivo, a investigação dessas condições deve fazer parte da avaliação clínica de toda paciente com suspeita de TDAH.

Entre as comorbidades, a associação com os transtornos de ansiedade merece atenção especial. A ansiedade pode coexistir com o TDAH como um transtorno independente, surgir em decorrência das dificuldades funcionais impostas pelo quadro ou, ainda, funcionar como uma estratégia compensatória. Algumas mulheres passam a depender da preocupação constante para lembrar compromissos, cumprir prazos ou iniciar tarefas. Nesses casos, a redução da ansiedade, sem que as dificuldades relacionadas às funções executivas sejam adequadamente abordadas, pode gerar a impressão de piora da produtividade, quando, na realidade, o transtorno de base permanece sem tratamento.

Os transtornos depressivos também são frequentes nessa população. Após anos de frustrações, críticas, dificuldades acadêmicas, profissionais ou interpessoais, algumas mulheres podem desenvolver sintomas depressivos secundários ao impacto funcional do transtorno. Além disso, manifestações como fadiga, dificuldade de concentração, desmotivação e procrastinação podem ocorrer tanto na depressão quanto no TDAH, tornando o diagnóstico diferencial mais desafiador. Nesses casos, a cronologia dos sintomas desempenha papel fundamental: no TDAH, as dificuldades de atenção e de funções executivas remontam ao período do desenvolvimento, enquanto, na depressão, tendem a surgir ou intensificar-se durante os episódios depressivos.

Outras condições, como transtorno bipolar, transtornos de personalidade, transtorno do espectro autista (TEA), transtornos relacionados a traumas e determinadas doenças clínicas, também podem compartilhar manifestações semelhantes às observadas no TDAH. Além disso, mais de um diagnóstico pode coexistir na mesma paciente. Dessa forma, uma avaliação clínica abrangente e criteriosa é indispensável para identificar comorbidades, estabelecer um diagnóstico diferencial adequado e elaborar um plano terapêutico individualizado, baseado nas necessidades específicas de cada paciente.

Diagnóstico segundo o DSM-5-TR

O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico e deve ser fundamentado em uma avaliação abrangente da história do desenvolvimento, dos sintomas atuais e do impacto funcional na vida da paciente. Até o momento, não existe exame laboratorial, teste genético ou exame de neuroimagem capaz de confirmar ou excluir, de forma isolada, o diagnóstico de TDAH. Dessa forma, a anamnese detalhada e o exame clínico permanecem os principais pilares da investigação diagnóstica.

De acordo com os critérios do DSM-5-TR, adultos devem apresentar pelo menos cinco sintomas de desatenção e/ou cinco sintomas de hiperatividade e impulsividade, persistentes por um período mínimo de seis meses, em intensidade incompatível com o nível esperado para a fase do desenvolvimento e associados a prejuízo funcional clinicamente significativo.

Além da quantidade de sintomas, alguns critérios diagnósticos devem ser obrigatoriamente considerados:

A presença de sintomas desde o período do desenvolvimento constitui um dos pilares do diagnóstico. Assim, indivíduos que passam a apresentar dificuldade de concentração apenas na idade adulta devem ser cuidadosamente investigados para outras condições, como transtornos de ansiedade, depressão, privação de sono, uso de substâncias, alterações hormonais, doenças neurológicas, condições clínicas ou efeitos adversos de medicamentos.

Embora documentos escolares e relatos familiares possam contribuir para a investigação, essas informações nem sempre estão disponíveis. Nesses casos, a reconstrução da história clínica torna-se particularmente importante, explorando retrospectivamente aspectos como desempenho escolar, hábitos de estudo, esquecimentos frequentes, necessidade de supervisão, dificuldades de organização e outros sinais compatíveis com o transtorno desde a infância.

Nos últimos anos, o aumento da divulgação de conteúdos sobre TDAH nas redes sociais ampliou o conhecimento da população sobre o transtorno. Entretanto, identificar-se com listas de sintomas ou vídeos informativos não é suficiente para estabelecer o diagnóstico. Muitas experiências atribuídas ao TDAH também podem ocorrer em indivíduos sem o transtorno ou estar relacionadas a outras condições clínicas e psiquiátricas. O que caracteriza o diagnóstico é a combinação entre início precoce, persistência dos sintomas, intensidade, prejuízo funcional e exclusão de outras causas que possam justificar o quadro clínico.

Por esse motivo, as principais diretrizes nacionais e internacionais recomendam que a avaliação diagnóstica seja abrangente, contemplando a história do desenvolvimento, o funcionamento psicossocial, a investigação de comorbidades e o diagnóstico diferencial, permitindo a elaboração de um plano terapêutico individualizado e baseado em evidências científicas.

Fluxograma do diagnóstico:

Paciente com sintomas

          │

          ▼

Anamnese completa

          │

          ▼

Sintomas desde a infância?

      ├── Não → Investigar outras causas

      └── Sim

          │

          ▼

Sintomas em dois ou mais contextos?

      ├── Não → Reavaliar

      └── Sim

          │

          ▼

Há prejuízo funcional?

      ├── Não → Acompanhar

      └── Sim

          │

          ▼

Diagnóstico diferencial

          │

          ▼

Avaliação das comorbidades

          │

          ▼

Plano terapêutico individualizado

Principais escalas utilizadas

Embora o diagnóstico do TDAH seja essencialmente clínico, algumas escalas padronizadas podem auxiliar na organização da investigação, na quantificação dos sintomas e na avaliação do impacto funcional. Entretanto, esses instrumentos não confirmam o diagnóstico de forma isolada e devem sempre ser interpretados em conjunto com a história clínica, o exame psíquico e os critérios diagnósticos estabelecidos pelo DSM-5-TR.

Entre os instrumentos mais utilizados na avaliação de adultos destacam-se:

Além das escalas, a avaliação neuropsicológica pode fornecer informações relevantes sobre atenção, memória, velocidade de processamento, controle inibitório e outras funções executivas. Entretanto, seus resultados devem ser interpretados com cautela, pois podem ser influenciados por fatores como privação de sono, ansiedade, depressão, motivação, fadiga e contexto da avaliação.

Da mesma forma, resultados dentro da normalidade não excluem o diagnóstico de TDAH, assim como alterações observadas em testes de atenção não são específicas do transtorno e podem ocorrer em diversas condições clínicas e psiquiátricas. Nesse sentido, evidências científicas recentes reforçam que testes neuropsicológicos e de desempenho contínuo devem ser considerados ferramentas complementares, jamais substituindo uma avaliação clínica abrangente e individualizada.

Tratamento farmacológico

O tratamento farmacológico constitui uma das principais estratégias terapêuticas para adultos com TDAH quando os sintomas provocam prejuízo funcional significativo. A decisão de iniciar medicação deve ser individualizada e considerar a intensidade dos sintomas, a presença de comorbidades, o histórico clínico, as preferências da paciente e os potenciais benefícios e riscos de cada opção terapêutica.

Atualmente, o tratamento pode incluir medicamentos estimulantes e não estimulantes, cuja escolha depende das características clínicas de cada paciente, das contraindicações, da resposta ao tratamento e da tolerabilidade. Dessa forma, não existe um medicamento considerado universalmente superior, tampouco um fármaco específico para mulheres. A seleção da terapia deve sempre ser personalizada e baseada em uma avaliação médica criteriosa.

Meta-análises demonstram que os medicamentos utilizados no tratamento do TDAH podem reduzir significativamente os sintomas nucleares em adultos, especialmente no curto prazo. Entretanto, a resposta terapêutica é variável entre os indivíduos, e os resultados observados em estudos populacionais não garantem o mesmo benefício para todas as pacientes. Além disso, embora as evidências sobre eficácia sejam consistentes, alguns desfechos de longo prazo ainda permanecem em investigação.

Antes do início do tratamento e durante o acompanhamento clínico, recomenda-se monitorar parâmetros como pressão arterial, frequência cardíaca, peso, padrão de sono, apetite e possíveis eventos adversos. Da mesma forma, devem ser avaliados sintomas de ansiedade, alterações do humor, adesão ao tratamento, uso inadequado da medicação e possíveis interações com outras substâncias ou medicamentos.

É importante destacar que a medicação não modifica automaticamente hábitos, crenças ou padrões de organização desenvolvidos ao longo da vida. Embora muitas pacientes relatem melhora da atenção, da concentração e do controle da impulsividade, frequentemente ainda é necessário desenvolver estratégias para planejamento, gerenciamento do tempo, organização e regulação das funções executivas.

Por esse motivo, os melhores resultados costumam ser observados quando o tratamento farmacológico é integrado à psicoeducação, à psicoterapia e a outras intervenções psicossociais. A resposta terapêutica também não deve ser avaliada apenas pela percepção subjetiva de aumento da produtividade, mas principalmente pela redução do prejuízo funcional, pela melhora da qualidade de vida e pelo impacto positivo nas atividades acadêmicas, profissionais, familiares e sociais.

Embora o TDAH seja uma condição crônica do neurodesenvolvimento, o tratamento adequado possibilita reduzir significativamente os sintomas e promover melhor funcionamento global, favorecendo maior autonomia, qualidade de vida e participação nas diferentes áreas da vida cotidiana.

Psicoterapia

A psicoterapia é uma forma de tratamento realizada por um psicólogo, baseada em técnicas cientificamente validadas, que tem como objetivo auxiliar o paciente a compreender seus pensamentos, emoções e comportamentos, além de desenvolver estratégias mais eficazes para lidar com as dificuldades do dia a dia. No contexto do TDAH, a psicoterapia não substitui o tratamento medicamentoso quando este é indicado, mas representa um importante complemento para reduzir o impacto funcional dos sintomas e promover melhor qualidade de vida.

Entre as diferentes abordagens psicoterápicas, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das mais estudadas no tratamento do TDAH em adultos. Essa modalidade terapêutica auxilia o paciente a desenvolver habilidades relacionadas ao planejamento, à organização, ao gerenciamento do tempo, à resolução de problemas, à regulação emocional e ao fortalecimento das funções executivas. Além disso, contribui para a identificação de padrões de procrastinação e para a construção de estratégias capazes de reduzir distrações e facilitar a realização das atividades cotidianas.

A psicoterapia também possibilita trabalhar crenças negativas frequentemente desenvolvidas ao longo da vida, como “sou incapaz”, “só consigo produzir sob pressão” ou “preciso fazer tudo perfeitamente”. Essas ideias costumam surgir após anos de críticas, incompreensão e frustrações, podendo contribuir para baixa autoestima, ansiedade e sofrimento emocional.

Quando o TDAH está associado a outras condições, como transtornos de ansiedade, depressão, transtornos relacionados a traumas, conflitos interpessoais ou transtornos alimentares, a psicoterapia deve contemplar essas necessidades de forma integrada. Nesses casos, o tratamento não deve limitar-se ao ensino de técnicas de organização e produtividade, mas também abordar aspectos emocionais, como culpa, vergonha, autocrítica excessiva e o impacto do diagnóstico tardio sobre a identidade e a qualidade de vida da paciente.

A psicoeducação também constitui um componente essencial do tratamento. Ao compreender que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por alterações na autorregulação e nas funções executivas, o paciente passa a interpretar suas dificuldades de maneira mais realista e menos culpabilizante. Esse processo não elimina a responsabilidade individual, mas favorece o desenvolvimento de estratégias mais eficazes para lidar com os desafios cotidianos e participar ativamente do próprio tratamento.

Estilo de vida e estratégias práticas

Embora mudanças no estilo de vida não sejam capazes de curar o TDAH, elas podem contribuir significativamente para reduzir o impacto dos sintomas e melhorar o funcionamento diário. Hábitos como privação de sono, sedentarismo, alimentação inadequada, consumo excessivo de álcool ou outras substâncias e exposição contínua a estímulos digitais podem intensificar dificuldades relacionadas à atenção, ao controle dos impulsos, à regulação emocional e às funções executivas.

Nesse contexto, algumas estratégias práticas podem facilitar a organização da rotina e reduzir a sobrecarga mental:

Ferramentas de organização devem ser compreendidas como recursos de apoio às funções executivas, e não como um teste de disciplina ou força de vontade. Nesse sentido, agendas, calendários e aplicativos funcionam como uma extensão da memória de trabalho, reduzindo a necessidade de manter um grande volume de informações mentalmente e permitindo que mais recursos cognitivos sejam direcionados à execução das atividades.

Da mesma forma, sistemas excessivamente complexos tendem a ser abandonados com maior facilidade. Muitas pessoas com TDAH criam métodos de organização elaborados, porém difíceis de manter a longo prazo. Em geral, estratégias simples, objetivas e utilizadas de maneira consistente costumam produzir melhores resultados do que métodos sofisticados que não conseguem ser incorporados à rotina.

É importante ressaltar que essas medidas não substituem o tratamento médico ou psicoterápico quando indicados. Entretanto, quando associadas à psicoeducação, à psicoterapia e, quando necessário, ao tratamento farmacológico, podem contribuir para reduzir o prejuízo funcional, favorecer a autonomia e melhorar a qualidade de vida.

Mitos sobre o TDAH feminino

“Quem consegue se concentrar por horas não tem TDAH”

A dificuldade central não é uma incapacidade absoluta de atenção, mas sua regulação. Interesse, urgência e recompensa podem aumentar temporariamente a concentração.

“Boas notas excluem TDAH”

Bom desempenho acadêmico não exclui o diagnóstico. É necessário avaliar o esforço empregado, as estratégias compensatórias e o funcionamento em outras áreas.

“Toda desorganização é TDAH”

Desorganização é inespecífica. O diagnóstico exige história desde o desenvolvimento, persistência, prejuízo e exclusão de explicações alternativas.

“TDAH é apenas falta de disciplina”

Disciplina e organização podem ser aprendidas, mas o transtorno envolve dificuldades persistentes de autorregulação. Julgamentos morais tendem a aumentar culpa sem oferecer estratégias efetivas.

“Medicamentos mudam a personalidade”

O objetivo do tratamento não é apagar características individuais, mas reduzir sintomas e melhorar o funcionamento. Mudanças emocionais indesejadas devem ser discutidas com o médico e podem exigir ajuste da estratégia terapêutica.

“Toda mulher ansiosa e esquecida tem TDAH”

Ansiedade, depressão, sono insuficiente, sobrecarga e diversas condições clínicas podem causar esquecimentos e dificuldade de concentração. Uma avaliação criteriosa é indispensável.

“O diagnóstico tardio significa que o transtorno começou na idade adulta”

O diagnóstico pode ocorrer tardiamente, mas os critérios exigem evidências de sintomas no período do desenvolvimento.

Perguntas frequentes sobre TDAH na mulher adulta

1. TDAH pode aparecer apenas na idade adulta?

Não. De acordo com os critérios do DSM-5-TR, o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, o que significa que seus sintomas devem estar presentes desde a infância, ainda que não tenham sido reconhecidos na época. Muitas mulheres recebem o diagnóstico apenas na vida adulta porque desenvolveram estratégias de compensação ou porque seus sintomas foram confundidos com ansiedade, depressão ou estresse. Nesses casos, o diagnóstico é tardio, mas o transtorno não começou na idade adulta.

2. Mulher pode ter TDAH sem hiperatividade?

Sim. Muitas mulheres apresentam o subtipo com predomínio de sintomas de desatenção, caracterizado por esquecimentos frequentes, dificuldade para organizar tarefas, procrastinação, distração e sensação de sobrecarga mental. A hiperatividade, quando presente, pode manifestar-se de forma menos evidente, como inquietação interna, dificuldade para relaxar ou sensação de estar sempre “com a mente acelerada”.

3. Ansiedade pode parecer TDAH?

Sim. A ansiedade pode causar dificuldade de concentração, esquecimentos, inquietação e prejuízo no desempenho cognitivo, tornando o diagnóstico diferencial um desafio. Por isso, é fundamental realizar uma avaliação clínica detalhada para identificar se os sintomas decorrem de um transtorno de ansiedade, do TDAH ou da coexistência de ambas as condições, situação relativamente frequente na prática clínica.

4. O TDAH piora após a menopausa?

Algumas mulheres relatam intensificação dos sintomas durante a transição para a menopausa e após esse período. Alterações hormonais podem influenciar atenção, memória e funções executivas em parte das pacientes. No entanto, as evidências científicas ainda são limitadas, e nem todas as mulheres apresentam essa piora. A avaliação deve ser individualizada, considerando também fatores como qualidade do sono, ansiedade, depressão e outras condições clínicas.

5. Quem tem TDAH consegue terminar uma faculdade?

Sim. O TDAH não impede o desenvolvimento acadêmico nem profissional. Muitas pessoas concluem graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado. Entretanto, podem precisar de maior esforço para organizar estudos, cumprir prazos e administrar o tempo. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado contribuem para melhorar o desempenho e reduzir o impacto dos sintomas na vida acadêmica.

6. Toda procrastinação é TDAH?

Não. A procrastinação pode ocorrer em qualquer pessoa e está relacionada a diversos fatores, como estresse, ansiedade, perfeccionismo, desmotivação, privação de sono ou sobrecarga de tarefas. No TDAH, entretanto, a procrastinação costuma estar associada a dificuldades persistentes nas funções executivas, especialmente para iniciar, planejar, organizar e concluir atividades, estando presente desde o período do desenvolvimento e acompanhada de prejuízo funcional.

Perspectivas futuras

Nas últimas décadas, o conhecimento científico sobre o TDAH em mulheres avançou de maneira significativa. Entretanto, ainda persistem importantes lacunas relacionadas à compreensão das particularidades femininas ao longo do ciclo de vida. Historicamente, grande parte das pesquisas concentrou-se em populações predominantemente masculinas, o que contribuiu para o subdiagnóstico e para o reconhecimento tardio do transtorno em muitas mulheres.

Nos próximos anos, espera-se que novos estudos ampliem o conhecimento sobre a influência das diferentes fases da vida feminina na expressão clínica do TDAH, incluindo adolescência, gestação, puerpério, perimenopausa e menopausa. Além disso, permanece a necessidade de compreender melhor a interação entre fatores hormonais, funções executivas, sono, saúde mental e qualidade de vida, bem como avaliar os efeitos do tratamento em longo prazo nessas diferentes fases.

Outro desafio importante consiste no desenvolvimento de instrumentos diagnósticos cada vez mais sensíveis às diferentes formas de apresentação do TDAH em mulheres. Embora os critérios diagnósticos atuais sejam aplicáveis a ambos os sexos, pesquisas futuras poderão contribuir para aperfeiçoar estratégias de identificação precoce e reduzir o número de mulheres que permanecem sem diagnóstico ou recebem tratamento apenas para condições associadas, como ansiedade ou depressão.

Paralelamente ao avanço da pesquisa científica, também será fundamental ampliar o acesso da população a informações confiáveis e baseadas em evidências. A divulgação de conteúdos sobre TDAH nas redes sociais contribuiu para aumentar o conhecimento sobre o transtorno e estimulou muitas mulheres a buscar avaliação especializada. Contudo, informações simplificadas ou descontextualizadas podem favorecer interpretações equivocadas e estimular o autodiagnóstico, reforçando a importância de uma avaliação clínica criteriosa realizada por um profissional habilitado.

Por fim, o cuidado às mulheres com TDAH deve evoluir para uma abordagem cada vez mais individualizada, considerando não apenas os sintomas do transtorno, mas também o contexto familiar, acadêmico, profissional, social e emocional de cada paciente. Mais do que ampliar o número de diagnósticos, o objetivo das pesquisas futuras deve ser aprimorar a qualidade da assistência, promover intervenções baseadas em evidências científicas e contribuir para que mulheres com TDAH recebam um cuidado integral, humanizado e centrado em suas necessidades ao longo de toda a vida.

Conclusão

O TDAH na mulher adulta permanece subdiagnosticado em muitos casos, frequentemente em razão de estratégias de compensação, manifestações predominantemente emocionais e expectativas sociais que podem mascarar seus sintomas. Como consequência, muitas mulheres passam anos atribuindo suas dificuldades à falta de disciplina, desorganização, baixa capacidade ou falhas pessoais, sem compreender que esses desafios podem estar relacionados a um transtorno do neurodesenvolvimento.

Nesse contexto, o diagnóstico adequado representa mais do que a identificação de um conjunto de sintomas. Para ser estabelecido com segurança, exige uma avaliação clínica criteriosa, que considere a história do desenvolvimento, a presença de sintomas em diferentes contextos, o grau de prejuízo funcional, as comorbidades e os diagnósticos diferenciais. Dessa forma, evita-se tanto o subdiagnóstico quanto a realização de diagnósticos precipitados.

Quando confirmado, o tratamento deve ser individualizado e pode incluir tratamento farmacológico, psicoterapia, psicoeducação, adaptações ambientais e estratégias voltadas ao fortalecimento das funções executivas e da autonomia. Mais do que reduzir sintomas, o objetivo é promover melhor funcionamento global, qualidade de vida e participação ativa da paciente em suas atividades pessoais, acadêmicas, profissionais e sociais.

Receber o diagnóstico na vida adulta pode despertar sentimentos diversos, como alívio, validação, tristeza ou frustração pelo tempo vivido sem respostas. Todas essas experiências são legítimas e merecem acolhimento. Mais do que atribuir um nome às dificuldades, compreender o TDAH permite substituir anos de autoculpabilização por conhecimento, estratégias baseadas em evidências e um cuidado verdadeiramente individualizado. Ao reconhecer precocemente o transtorno e oferecer uma abordagem terapêutica integral, torna-se possível reduzir o sofrimento, fortalecer a autonomia e proporcionar melhores perspectivas de saúde e qualidade de vida para mulheres em todas as fases da vida.

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Nota ao leitor: Este artigo foi elaborado com finalidade educativa, com base nas evidências científicas disponíveis até o momento. As informações apresentadas não substituem a avaliação médica individualizada, o diagnóstico ou o tratamento realizados por um profissional habilitado. Sintomas como desatenção, impulsividade, desorganização e dificuldades de concentração podem estar presentes em diferentes condições clínicas e psiquiátricas, sendo indispensável uma avaliação clínica criteriosa para o diagnóstico correto.

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